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A NOSSO RESPEITO

TÁTICA DE COMBATE À INCÊNDIO EM EDIFÍCIOS ELEVADOS

Este artigo do Ten Cel BM Sérgio Araújo, aborda os princípio das ações de combate à incêndio em edifícios elevados

Ao longo de 25 anos como oficial do Corpo de Bombeiro, tive a oportunidade de participar dos mais significativos incêndios elevados na Cidade do Rio de Janeiro, sendo estes, entre outros, os incêndios do Edifício Vale do Rio Doce (1981) e do Edifício Andorinhas (1985).O comando de operações de combate a incêndios em edifício elevados sempre exerceu sobre mim um interesse especial, em virtude das questões de ordem tática associadas a esses tipos de incêndios, os quais envolveram uma certa complexidade e riscos inerentes, e que devem ser perfeitamente gerenciados pelo comandante do socorro.

Este artigo, de caráter introdutório ao assunto, foi escrito não só baseado nas experiências profissionais, mas também na literatura existente sobre o assunto, em especial as Normas de Procedimento Operacionais dos Bombeiros de Nova Iorque (New York Fire Dep. Standard Operations Procedures – NYFD –SOP’s), procurando chamar a atenção para as ações fundamentais por parte das organizações de bombeiros envolvidas neste tipo de operações, com o objetivo de torná-las mais eficientes, práticas e de menos risco.

INTRODUÇÃO

Os incêndios em edifícios constituem uma indubitável realidade da vida moderna nos grandes centros urbanos em todo mundo.

Ainda que a prevenção de incêndio tenha evoluído consideravelmente nos últimos anos, em termos de detecção automática, sistema de extinção fixa ou automática, sistema de proteção passiva, de tiragem de fumaça, de notificação, orientação e escape, os procedimentos de utilização destes recursos deve ser otimizada por meio de ações coordenadas, as quais evitarão riscos para equipe de bombeiros e para o publico envolvido bem como possibilitarão uma ação mais rápida com o menor número de perdas.

Nas linhas seguintes serão apresentados alguns aspectos táticos fundamentais, como proposições a serem implementadas pelos comandos de socorros de bombeiros quando do atendimento a incêndios em edifícios elevados.

CASUÍSTICA DOS INCÊNDIOS

Geralmente os incêndios em edifícios elevados têm como causa principal a eletricidade (60%), que se manifesta desde a sobrecarga em fiação, a equipamentos elétricos deixados ligados, os quais vêm superaquecer-se. Deve-se considerar como causa também relevante as ações humanas, como, por exemplo, restos de cigarro jogados em lixeiras (15%).

Em geral, a maior parte dos incêndios em edifícios ocorre geralmente à noite, a partir das 19h, conforme dados da National Fire Protection Association (NFPA).

COMPORTAMENTO DE PESSOAS

As pessoas, ao receberem a comunicação de um incêndio, quer seja diretamente, por telefone ou pelos sistemas de notificação e alerta, tendem a agir de várias formas.

A primeira reação é a de incredibilidade do fato, como um processo-resposta de negação. Entretanto, cerca de 15,9 %, segundo estudos desenvolvidos por J. L.Bryan (Referência citada no Livro Fundamentos da Segurança Contra Incêndios em Edifícios, pag 248, de autoria do Prof. Antonio Leça Coelho, LNEC, Lisboa, 2002) não deixam o edifício, sendo a razão mais freqüente a de combater o incêndio. A partir do primeiro momento em que por meio de um processo de determinação direta, por meio de uma equipe previamente constituída e treinada para situação de emergência - em geral brigada de incêndio – ou ação decisória espontânea, as pessoas começam a se encaminhar para as escadas, não se estabelecendo de imediato (ao contrário do que se pensa) qualquer tipo de pânico na maior parte das situações, enquanto elas não se verem retiradas ou surpreendidas pela fumaça ou pelo calor ou se sentirem desorientadas ou limitadas quanto à saída.

RECEPÇÃO DO AVISO

Durante a recepção do aviso na sala de comunicação no Corpo de Bombeiros, já se pode ter uma idéia das dimensões do evento. Vários telefonemas sucessivos com prefixo diferente, e em curto espaço de tempo, indicam a evolução de um incêndio para uma situação perigosa, e nessa situação o responsável pela saída das viaturas (o comunicante) pode de imediato despachar o socorro sem grandes confirmações. Simultaneamente, deve solicitar o apoio de outro colega de serviço para os pedidos de socorro complementares em outro ramal de telefonia, enquanto se mantém em contato permanente com um dos solicitantes que esteja observando o incêndio, a fim de colher as informações relativas ao desenvolvimento do sinistro, repassando-as via rádio para as viaturas de socorro, mantendo constantemente atualizado o comandante do socorro quanto ao andamento da situação. Ao mesmo tempo ele deve solicitar apoio policial para a liberação das vias de acesso nas proximidades do local até a chegada do socorro.

O DESLOCAMENTO

O tempo-resposta ideal para a chegada em um incêndio em edifício elevado é da ordem de 12 a 22 minutos no máximo (tempo computado entre a recepção do aviso, deslocamento, estabelecimento do socorro e ataque), quando a temperatura do ambiente atinge cerca de 1095ºC, havendo o risco de inflamação generalizada (flashover).

A CHEGADA AO LOCAL

Ao chegar no local as viaturas devem ser posicionadas a uma distância mínima da metade da altura do edifício na direção do vento.

Tal procedimento visa a proteger as viaturas e os bombeiros de quedas de vidros, material em combustão, e até mesmo pessoas que vêem nas viaturas de bombeiros a esperança derradeira para o seu salvamento – a exemplo do ocorrido no incêndio do Edifício Joelma em 1974 quando dezenas de pessoas se jogaram sobre as viaturas do Corpo de Bombeiros.

A ABORDAGEM AO EDIFÍCIO

A abordagem ao edifício deverá ser feita de tal forma que os bombeiros sejam divididos em grupos no local de chegada do socorro portando os seguintes materiais:

· Roupa de Proteção Completa (RPC)

· Equipamento de Proteção Respiratória (EPR)

· Mangueiras de 1 ½”

· Lanternas

· Rádios Portáteis

· Ferramentas de Entradas Forçadas (FEF)

Em geral o bombeiro deverá estar carregando entre 25 e 40 quilos de equipamentos adicionais, o que exigirá considerável condicionamento aeróbico para ganhar os andares mais elevados do edifício.

A entrada pelo acesso principal do edifício deverá ser em fila única e de forma acelerada, para evitar que os bombeiros se tornem alvo dos objetos em queda, referidos anteriormente.

ESTABELECIMENTO DE POSTO DE COMANDO (P.C.)

O primeiro posto de comando (PC) devera ser estabelecido no salão térreo (lobby) do edifício, e deverá contar com a presença do administrador munido de diversas plantas dos pavimentos e dos sistemas.

Um segundo PC deverá ser estabelecido dois andares abaixo do incêndio e terá a designação de Posto de Comando Avançado (PCAv).

ESTABELECIMANTO DOS SISTEMAS DE COMUNICAÇÕES

Deverão ser estabelecidos dois canais de comunicação básicos:

· o de Comando, que interliga os chefes do socorro específico (Comandante Geral de Operações, Combate a Incêndios, Busca e Salvamento e Manobra D’água) e,

· o Tático, que interliga os diversos bombeiros envolvidos nas diversas operações, e entre eles seus chefes imediatos (Combate a Incêndio, Busca e Salvamento e Manobras d’água).

Entre o P.C estabelecido no salão térreo (looby) do edifício e a viatura de comando de socorro, deverá ser estabelecido um link de comunicação, se valendo do próprio motorista de tal viatura (o qual sob hipótese nenhuma deverá se afastar da viatura, sem a devida substituição) e entre este último e a unidade de origem.

A CHEGADA AOS ANDARES ENVOLVIDOS

A chegada aos andares sinistrados envolvem certos detalhes de relativa complexidade, conforme veremos a seguir:

· Durante a subida pelas escadas, não raro, com largura máxima de 1,20m, o bombeiro carregado com cerca de 40kg de equipamento terá uma largura de uma ordem de 0,90m, que poderá causar uma obstrução ao escape,com a retenção do fluxo, ficando ele impossibilitado de subir, devido a restrição de seu deslocamento ocasionado pelas pessoas que descem pelas escadas. Por essa razão recomenda-se que sempre o fluxo dos ocupantes durante o escape seja do lado interno da escada, ou seja, à esquerda de quem sobe, pois com tais rotas definidas evita-se inclusive acidentes decorrentes da abertura súbita das portas corta-fogo, que podem ocasionar alguns acidentes e causar retenção aos escape. Tal disposição facilita inclusive o acesso rápido por parte dos bombeiros aos andares envolvidos, tornado a operação assim mais fácil, uma vez que eles se mantêm do lado da aberturas das portas.

· O próprio peso carregado pelos bombeiros, o eventual despreparo físico e a própria característica da Roupa de Proteção Completa (RPC), que dificulta a sudorese, restringem a chegada dos bombeiros aos andares superiores, no tempo requerido e nas condições de estabilidade física e emocional para o combate ao incêndio. Por exemplo, imagine o bombeiro subir 25 andares totalmente equipado.

Para garantir maior segurança dos bombeiros, os mesmos deverão estar equipados com os Equipamentos de Proteção Respiratória (EPR), para quaisquer eventualidades, como, por exemplo, a presença de gás tóxico como o gás cianídrico (HCN), decorrentes da queima de plásticos e espumas, presente em estofamento e em alguns revestimento, que pode levar à morte uma guarnição inteira desprotegida em apenas 10 minutos.

BUSCA DE PESSOAS

A busca de pessoas deve envolver um critério lógico e sequencial, no sentido horário, em que a dupla de bombeiros deverá estar devidamente equipada, e com a corda-guia mantida retesada e controlada por um bombeiro responsável pela equipe de busca.

 

É importante lembrar-se do que as pessoas às vezes poderão ter seu estado psicológico de medo agravado, procurando esconder-se dentro de armários, embaixo de camas (especialmente em hotéis apartamentos e hospitais) e ainda em banheiros e sacadas, pois as pessoas podem ir para lá esperar por socorro. Estes locais devem ser objeto das primeiras ações de busca.

 

Um cuidado especial durante as buscas e o combate ao incêndio é a ocorrências de explosões súbitas (backdrafts). Para evitar serem surpreendidos, os bombeiros devem tomar especial atenção na abertura das portas, devendo sempre se manter por trás delas, como forma de proteção. Quando da entrada nesses compartimento de risco, jatos d'água neblinado devem ser aplicados sob a forma de borrifadas para o teto visando a eliminar o risco de ocorrências de uma inflamação generalizada (flashover).

 

Nos locais em que já foram realizadas buscas, para evitar outras complementares, as portas devem ser mantidas com um X (riscado com giz ou caneta do tipo pincel atômico) e encostadas, porem não trancadas, e se possível com o trinco travado para evitar seu retrancamento.

RETIRADA DE PESSOAS

A imagem de um bombeiro carregando uma vítima desacordada em seus braços é sempre muito bem vista, principalmente quando se trata de uma criança no colo (ou, em algum caso, uma bela mulher desacordada). Entretanto em termos práticos, podemos nos deparar com uma situação do tipo de se ter uma vítima com cerca de 130kg. Como retirá-la, se o bombeiro já se encontra totalmente carregado de equipamento.

 

Uma das soluções mais práticas é a de obter um lençol ou uma cortina e colocar sob a vítima desacordada. Com esse material improvisado, arrasta-se a vítimas, parando de 30 em 30 segundos para administrar ar respirável em seu EPR, utilizando, se houver, o dispositivo do tipo manifold, que permite o suporte a esta vítima caso esteja intoxicada pela fumaça, independente do bombeiro ter de tirar a sua máscara.

O ATAQUE AO INCÊNDIO

O ataque ao incêndio deve contemplar ao máximo o uso de linhas de mangueiras de uma polegada e meia com EVR acoplado. Além de servir para diminuir consideravelmente a temperatura do ambiente, serve para afastar a fumaça e os gases tóxicos, bem como diminuir a possibilidade de choque elétrico acidental.

 

No local de incêndio deve ser posicionada uma Linha de Ataque (LA), e seu desenvolvimento deve evitar torcimentos, passagens por debaixo de portas e quinas vivas fatos estes que devem ser observados durante a amarração.

 

Um aspecto que deve ser levado em conta também é o desligamento da energia elétrica, que só deve ser feito setorialmente ou seja no local do incêndio e nos espaços adjacentes, de modo que evite o obscurecimento total do ambiente circunstância que pode dificultar a execução das operações. Duas linhas de proteção (LP) adicionadas devem estar posicionadas embaixo e acima do incêndio com a finalidade de evitar a propagação do incêndio para andares adjacentes, quer seja por condução, convecção ou sobrepressão (ao contrário do que se pensa, um incêndio também pode se propagar por andares abaixo, não só devido á queda de materiais em combustão, mas também em função de diferenças de gradiente de pressão).

 

Durante o ataque, os bombeiros deverão se manter na posição de proteção, agachados, para evitar os efeitos da caloria, má visibilidade e impacto decorrentes de uma explosão súbita.

 

Alguns pontos devem ser freqüentemente inspecionados, sem aparente visibilidade de fogo para se ter uma idéia real das condições de propagação do incêndio (com o devido cuidado para evitar queimaduras e intoxicação). São eles:

· Dutos de telefonia, eletricidade e ar condicionado

· Entreforros e entrepisos

· Vazios entre paredes

· Poços dos elevadores

 

Um fato que merece consideração especial no final deste artigo é relacionada a ventilação no incêndio. A ventilação serve para tornar a atmosfera mais respirável.bem como para reduzir a caloria interna e os riscos,entre algumas finalidades quanto aspecto técnico.

 

Nos prédios mais modernos dos países mais frios, em especial nos Estados Unidos da América, pode-se contar com o uso do HVAC(Heat Ventilation Air Condition Sytem – Sistema de Aquecimento, Ventilação e Ar-Condicionado), cujo mecanismo de reversão pode ser acionado. Ao invés da insuflação, pode retirar a fumaça e a caloria do ambiente interno, jogando-os para fora do edifício, sendo um precioso elemento de apoio tático.

 

Entretanto na maioria das vezes os bombeiros deverão utilizar a abertura das janelas, em sentido oposto ao do edifício, para realizar a ventilação forçada; outra opção é procurar atingir o topo do edifício e fazer lá a devida abertura (ventilação de topo) ou utilizar o jato d’água na forma de neblina de meio velocidade para fora do local esfumaçado, fazendo o afastamento da fumaça baseado no principio de Venturi.

CONCLUSÃO

É importante colocar em prática os fundamentos apresentados e consolidar a sua validação. Isto só poderá ser conseguido por intermédio de treinamento e simulados, os quais, sem sombra de dúvida são os mais preciosos para garantia da eficácia dos serviços de bombeiro durante uma situação real de incêndio em edifícios elevados.

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